sexta-feira, junho 06, 2008

Quando a ordem não nasce do caos...


Isto está caótico....


.... vou fugir....

....e no mesmo instante permaneço...

domingo, maio 04, 2008


Deixo-me ficar nesta praia perdida, nesta areia que me fere o rosto e me engole por dentro. Eu podia ir embora e partir...Há tanto para conhecer lá fora! Mas deixo-me ficar, por preguiça, talvez, ou porque hoje o mar está revoltado com o mundo e gosto de ver a espuma da revolta, ou porque a maresia diz que sou sua filha e eu deixo-me deslumbrar com o título "filha do mar"... mas há tanto para sentir lá fora... Apetece-me ir, e gritar, e desfazer os murais de vidro, até me apetece ser alguém, mas sento-me mais uma vez e deixo-me ficar...Talvez não seja por preguiça, não, definitivamente não é...talvez seja o sol que me toma nos seus raios que me ferem a vista (invejosos, porque não querem que veja as cores que existem lá fora)... e há tanto para ouvir lá fora, mas agora deito-me nesta areal e deixo-me ficar. A praia está deserta. Não há ninguém para falar e mesmo que houvesse, nada haveria a dizer, pois é o pó vazio que permanece...deixo-me ficar neste marasmo, nesta inércia, neste não ser e saber que não é. Fico por medo e cobardia...deixo-me ficar nesta praia que se chama Portugal....
Mas amanhã vou partir, vens comigo?

quarta-feira, novembro 21, 2007

Mescla de palavras banais



Rasgou. A pele rasgou e fiquei assim…descoberta e tão frágil como a chuva que cai e é pisada e lameada. Por momentos, continuo nessa chuva suja e gasta. Mas, então, vens tu, iludido por este corpo nu e escondido. Aos teus olhos, todo o pó brilha e vinga. Queres resgatar (como sempre) os pedaços perdidos neste tronco que se parte continuamente. Eu não tenho nada a perder e deixo que me prendas nesse teu olhar. Convences-te de que és capaz de limpar todo o sangue que se misturou com a chuva (e eu não acredito). Chega o momento em que te abres em mim. O pensamento dói-me (mas pouco, porque fazes com que o corpo vença). Sinto-me arder em ti tão suavemente, não só nesta tarde de Outono, mas em todas as tardes do teu dia. (E também nas noites do teu corpo). Até podia ser Inverno (sim podia) porque quando nos entranhamos um no outro, a chuva pára e admira-nos nesta unidade que transborda de dentro para fora. Tudo se passa cá dentro, quando eu fico em ti e quando tu ficas em mim. O meu velho amigo bem me disse que lá fora tudo ia ruir. (E lá fora, tudo se desvanece) Porém, eu sinto-te deslizar em mim e não tenho medo. Não tenho mesmo, porque te amo (palavra tão lamechas e que se tornou tão banal). Ao teu lado, tudo é possivel. E, assim, deixo-me ir quando a tua mão e o teu braço e o teu corpo me conduzem para ti. Nestes jardins, onde não chove e onde tudo acontece: a carne estreme em silêncios estonteantes de sabores nunca antes sentidos. E eu não fujo. Porque te amo (sim, a palavras continua a ser lamechas e banal) mas amo-te, de uma forma que chega a doer cá dentro, de uma forma que me faz querer possuir-te até à última célula - mesmo que ela já esteja morta -, amo-te de uma forma que me faz tremer sempre que passas e que me faz desmaiar, sempre que me respiras. Amo-te de uma forma que as palavras não podem escrever. Esse prazer que me dás é também ele um fragmento desta palavra tão ridícula e banal, mas que é, afinal, o oxigénio desta existência que se revela, por vezes, tão medíocre. Chegou a hora de adormecer e eu continuo aqui, porque te amo (cada vez mais), amo-te de uma forma assustadora e absurda…Por isso, neste aconchego que queima de tão quente que é, estendes o teu braço sobre o meu peito e a minha perna alcança a tua anca (é assim que ficamos hoje e todas as noites). O sono está constantemente a chegar. Recuso-me, no entanto, a cair nas suas amarras, porque hoje não quero perder um único segundo do teu rosto. (Hoje não). Fico. Já não me consome o medo de naufragar. Hoje, e sempre, eu acredito.
~~ E sorrio no sabor do teu beijo…~~

sexta-feira, outubro 05, 2007

Amanhã



Quando tudo escurece e o vento engole o mundo, eu revejo-te naqueles fios de luar que espelham o amanhã. E deixo-me ficar, contemplando o brilho que só tu podes dar. Será que és o amanhã? Sem pressas deixo-me ir devagar, na dança para a qual me estás a puxar. Porque quando tudo morre, tu és aquele que renasce. E eu queria tanto que fosses o amanhã! E quando as forças esmorecem e quando a páginas do livro se rasgam e mesmo quando o chão se abre e tudo cai, tudo cai, tu és o amanhã. Eu sei que és o amanhã. Nem sempre posso adormecer. Está frio demais. Mas deixo-me ir devagar, sem pressa de te encontrar. Porque o amanhã está quase a chegar. Deixo-me ir tão devagar, porque o amanhã vai mesmo chegar. Há gritos e espasmos e violações e lágrimas e mundo que escurece e se abre na dor. Quando durmo há tudo isso e há escuridão cruel e há sangue sem vida. Mas deixo-me ir devagar, sei que já estou a acordar. Tão devagar…Ao fundo, a tua luz abraça-me nessas mãos que são barcos de papel, nesses braços feitos de amoras. Vou tão devagar porque tu nunca te cansas de me esperar. Já não és amanhã. Hoje acordei porque hoje vens tu embrulhado nas aves e nas folhas acastanhadas que regressam aos ramos . Adormeço, agora, no teu corpo que já percorri tantas vezes e adormeço no teu peito que eu conheço de cor. Deixo-me ir devagar, escorregando dentro de ti, onde tudo é tão quente e luminoso. O amanhã chegou. E hoje lembras-te de mim antes de ti?

quinta-feira, março 08, 2007

PESSOA CANDIDATO A MELHOR PORTUGUÊS DE SEMPRE


PESSOA CANDIDATO A MELHOR PORTUGUÊS DE SEMPRE

Diálogo entre Fernando Pessoa e Álvaro de Campos

(surpreendido por Teresa Rita Lopes)

Cenário qualquer serve: Brasileira, Martinho da Arcada, Irmãos Unidos…Álvaro de Campos entra, estabanado, e senta-se à mesa, na frente de Pessoa, quase lhe derrubando a chávena de café. Pessoa tem um sobressalto: “Oh homem, que lhe aconteceu? Viu alguma assombração?” Campos aquieta-se , encara-o e ri-se : “Estou a vê-lo a si – aqui, hoje, fim de Fevereiro de 2007…” E riem-se, ambos, cúmplices nesta partida que estão a pregar ao Tempo – que oficialmente os anulou há mais de setenta anos.

Mas Campos é sempre o mesmo espalha-brasas. Volta à carga: “Então já sabe?”

Pessoa faz-se desentendido: “O quê?”

- Que está entre os dez mais votados portugueses de sempre, no concurso da televisão!

Mas a sua apresentadora fez tudo para dissuadir as pessoas de votar em si. Vai ter o desgosto de ser batido aos pontos pelo Salazar! Sabe como o introduzem? Dão ao público a alternativa de escolher entre “inspirado” ou “alienado”…E a sua apresentadora, que deveria ser a sua mandatária, parecia era estar ali a defender que você foi o português mais chanfrado e mais bêbado de sempre!…Até contou aquela conhecida anedota em que você se vangloria de beber não como uma esponja mas como um armazém de esponjas, com um anexo ao fundo…Reconheça que não é a sua melhor piada. E citou mesmo o seu último poema a pedir “mais vinho” : “Dá-me mais vinho porque a vida não é nada.”

- “É nada!” “Porque a vida é nada”! Já sabe que eu não suporto que me estropiem os versos!

- Foi ela que disse assim. Olhe, até apontei aqui.

- “ A vida não é nada” é uma banalidade que você tem obrigação de saber que eu não diria. “A vida é nada” é outra coisa.

- As suas subtilezas…Rala-se mais por lhe estropiarem um verso que por ser apresentado como um bebedolas. E ainda por cima estoirado das vergas. Quanto a mim, a pequena afirmou categoricamente que eu era “homossexual”.

- A culpa é sua que gostava de desempenhar esse papel para provocar os pacóvios…

Até me fez publicar aquele seu soneto em que fala, à Daisy, desse “pobre rapazito” que lhe deu “tantas horas tão felizes”…

- Mas também há essa Daisy…! E quantos mais poemas eu deixei a falar das minhas mulheres…?É só uma questão de os ler. E de perceber que o que eu sempre quis foi “viver tudo de todas as maneiras”, ser “toda a gente”! Se levam ao pé da letra tudo o que eu digo nos meus versos, vão acusar-me de opiómano, depois de ler o “Opiário”!

- Eu bem me farto de dizer que “o poeta é um fingidor”…

- Começo a ficar irritado por não conseguir irritá-lo. E fique sabendo que , no que respeita à sexualidade, você não ficou mais bem servido. Se a mim me apresentam como paneleiro, a si é como eunuco!

- Ó Álvaro, por favor, palavrões, não!

- Ora essa! Foi assim que eu chamei ao Walt Whitman, na “Saudação” que lhe fiz e, que eu saiba, ele nunca reclamou…Você incomoda-se mais com os meus palavrões que com essa imagem que deram de nós, de perfeitos marginais…Só faltou chamar-lhe drogado e arrumador de carros!

- A pequena não fez por mal…Não percebe as nossas encenações…Eu farto-me de dizer que sou um poeta dramático mas as pessoas não percebem o que isso é…

- Mas olhe que ela fartou-se de encenar: disse que você escrevia de pé, durante a noite…Os votantes vão achar que é mais uma chanfradice sua…

- Gosto que os leitores caiam nas ratoeiras das minhas ficções…Ela deve ter-se lembrado daquela carta que toda a gente cita, ao Casais Monteiro, em que eu lhe conto que no tal “dia triunfal” da minha vida em que os heterónimos se me manifestaram, escrevi de enfiada os poemas todos do “Guardador de Rebanhos”, de pé, junto de uma cómoda alta – e acrescentei que era assim que eu gostava de escrever… Não houve “dia triunfal”, como você sabe…Você, aliás, só nasceu para mim três meses mais tarde. E essa da cómoda é pura encenação, a que tenho pleno direito…

- Além de encenar , a pequena fartou-se de inventar: até que você se correspondia com o Search, imagine! Ah! e atribuiu-me a mim a sua “Chuva Oblíqua” , publicada no Orpheu! Fique com ela! Nunca apreciei esse seu exercício escolar de Interseccionismo, bem sabe. E disse que o Caeiro era “um poeta clássico”. O Caeiro, imagine-se, que faltava ao respeito a todas as regras, a todas as disciplinas…Ou ela não sabe o que é um “poeta clássico” ou não conhece o Caeiro…

Pessoa estava nitidamente divertido com a indignação do amigo. O que aumentou a sua sanha:

- E não o irritou a confusão grosseira que a pequena fez entre heterónimos e pseudónimos, contra a qual você se insurgiu durante toda a sua vida? Pensar que cem anos depois do Orpheu, ainda uma apresentadora que tinha a obrigação de ser culta continua a não perceber o que eram, para si, os seus heterónimos! ! E chamou “último heterónimo” ao Barão de Teive! Você que se esfalfou a afirmar que heterónimos somos só três, não se indigna com estas calinadas?

- Coitada! Se calhar estava a recitar uma lição aprendida à pressa e atrapalhou-se!

- Mal aprendida e mal recitada!

- Não seja tão azedo com a rapariga…Quem o ouvisse ia pensar que é por você ser homossexual…

- Ria-se, ria-se, que ainda não sabe o principal. Disse da sua Mensagem que aí você “entra pelo patriotismo exacerbado”! Estou a vê-lo a encabeçar algum desses comandos de extrema-direita que por aí andam a desancar os pretos…Olhe que ainda há muita gente convencida de que você foi porta-voz do Salazar!

- Esse “aldeão letrado”! esse “contabilista”, esse “seminarista da contabilidade”!

- Fique sabendo que você não se livra da fama de ter sido um fascistoide!

- Eu que até denunciei o regime salazarista como “uma actual ditadura à Mussolini”!

( neste caso até num texto em francês, porque o queria que se soubesse disso além-fronteiras).

- O pior nem foi o que essa sua pseudo mandatária disse, foi tudo o que não disse e viria tão a propósito dizer para você ganhar o concurso! Você foi sempre tão militantemente português que até me irritava!

- Não tinha razão… Sempre propus um “nacionalismo cosmopolita”, como sabe. E que nunca tivéssemos “a alma limitada pela nacionalidade”.

- Tenho que reconhecer que você levou toda a sua vida a querer impor Portugal aos olhos dos seus compatriotas e do mundo como um “povo de navegadores e criadores de impérios”. E isso desde a puberdade, em que você descobriu, em Durban, que os trezentos alunos do seu liceu não sabiam que o ponto da terra em que viviam tinha sido descoberto por Vasco da Gama . Por isso planeou logo ensaios sobre esse nosso navegador, e sobre os Lusíadas , que até começou a traduzir. Sei disso por ouvir dizer, claro. Nessa altura ainda não nos conhecíamos…

- É verdade que vivi sempre com esse projecto de lutar contra a nossa “descategorização civilizacional” .

- E de ser um “criador de cultura” – único antídoto contra o fanatismo, a ignorância e a tirania, que continuam a pôr o mundo a ferro e fogo. Isto é que sim, o habilitava ao título, isto é que ela devia ter dito! E também que você até criou uma personagem literária, Thomas Crosse, para divulgar, em inglês, a cultura portuguesa. E desde a sua juventude planeou escrever uma série de livros com esse objectivo, denominada “All about Portugal” – de que ficou apenas completo (ou quase…) um guia de Lisboa.

- Veja lá se as pessoas pensam que eu quis orientar os turistas nas ruas de Lisboa…O que de facto quis foi mostrar ao mundo, em inglês, o nosso património cultural, para não pensarem que só temos sol e praias, fado e caldo verde…

- Confesso-lhe que sempre achei os seus projectos demasiado utópicos, mas alinhei e alinho nessa sua campanha pela pátria-língua-portuguesa , que você disse ser “a mais rica e complexa das línguas românicas”.

- Disse e digo. E quando falo de “Quinto Império” não estou a desejar que o D.Sebastião volte para nos salvar. Sempre disse e escrevi que “não há Messias. O máximo que um grande homem pode ser é um estimulador de almas.”

- Foi o que você quis sempre ser, eu sei…Embora eu ache isso um pouco megalómano, desculpe que lhe diga…

- O Quinto Império por que eu sempre ansiei foi o da língua portuguesa. Já viu a força e o esplendor cultural que nós podíamos ter se soubéssemos cultivar as nossas relações com todos os povos que falam português por esse mundo fora?! Levei a vida a sonhar com isso. E ainda sonho.

- Veja lá se a sua apresentadora falou disso! Isso sim , é que faria de você o melhor português de sempre!

- Coitada, não era obrigada a saber estas coisas…

- Ai era, era! Tudo isto está escrito em livros! Não ouviu os meus parêntesis, quando eu o citava? A obrigação dela era saber, já que se prestou a esse papel!

- Não dê importância a ninharias…

- Já agora , o que a pequena podia ter dito, quando falou do seu último poema, o tal em que você manifesta a sua última vontade de emborcar mais uns copos, (que esse poema sem rimas nem sequer é seu, é mais meu que seu!) é que os seus, verdadeiramente seus, últimos poemas datados , de 8/9 de Novembro de 1935, dois, e, outro, de 10 de Novembro são de amor . Este último é inspirado não por uma determinada mulher mas pela mulher-todas-as-mulheres que você sempre amou e que, neste poema, você diz abraçar com “alvoroço” . Nos outros dois confessa o seu amor ao corpo magro do seu “pobre Portugal”, como lhe chama, esfomeado e oprimido por esse “Estado Novo” que tentou ridicularizar num poema satírico desse mesmo dia. Oh Fernando, você abalou da vida com esse amor insofrido entalado na garganta, a doer-lhe no coração : “Meu pobre Portugal /Dóis-me no coração” escreveu você. Será que isto, para a pequena, é “patriotismo exacerbado”?

- Você bem sabe que eu nunca tive sorte em concurso nenhum…

- A verdade é que fomos sempre vítimas do poder.

- A verdade é que nada disto tem a mínima importância…

- Tem, tem! As pessoas não lêem os seus livros porque as pessoas lêem cada vez menos livros mas televisão ah isso todas vêem. E é essa imagem de si que vai ficar : chanfrado, bebedolas, maricas, fascistoide, a escrever mensagens de “patriotismo exacerbado”…Até os meninos da escola, quando você lhes sair no programa, se vão lembrar disso…

A exuberância de Campos era tal que, na mesa vizinha, três homens repararam neles:

- Aquele não é o que apareceu na televisão no concurso do melhor português, o Pessoa?

- O Pessoa?

- Sim, o bêbado!

- Ah! o chanfrado da Mensagem! Se não é, parece!

- E o outro deve ser o tal pseudónimo, o que só pega de empurrão…

Pessoa susteve Campos, que se levantou de punhos fechados, direito à mesa dos comentadores, agarrou-lhe o braço e, a muito custo, levou-o dali para fora.



Escrito pela professora Teresa Rita Lopes

quinta-feira, fevereiro 22, 2007


Só tu sentirás culpa...

...

...Porque eu já estarei enterrada para o fazer!

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Dedos que se arrastam



Sem tempo para escrever

Ainda que me doa na alma
Ainda que me doa na carne
Deixo-me ficar

Somente

Neste siêncio de maresia
Neste silêncio de palavras
Neste silêncio...

quarta-feira, outubro 11, 2006

Inverno - Parte 3

Deitada na minha cama, é assim que me encontras. Fechas a janela e acendes a lareira. Parece que o frio já só faz estremecer lá fora. No entanto, vejo os blocos de gelo que se entranham em cada canto deste quarto. Olhas a neve que humedece o chão...o mesmo chão onde me deitas e me tocas com os teus lábios feitos de papel. Eu devia sentir frio, não devia? Mas, talvez sejas o ninho mais quente que já alguma vez aconchegou. É assim que fico: aninhada em ti, hoje, amanhã e até quando quiseres, porque agora o tempo já não dói. Sim, hoje ficas em mim. Descobri que afinal, naquela madrugada, o vento apenas soprava para tocar a nossa música, sim a mesma que antes era cantada pelos clã. E, a neve caíu para apenas relembrar que era feita do mesmo linho branco que nos envolve. Afinal, naquele amanhecer que vimos juntos em abraços fechados, as árvores grisalhas renasceram e deram à luz morangos rubros. No nosso mundo, tudo é possível desde que não faça frio. Nós rimamos juntos. Nós temos a nossa cor. Nós somos feitos de "Nós”! Dá-me a tua mão, valeu a pena esperar? A janela está fechada, mas já não importa porque agora tu estás cá dentro.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Resposta Ao Inverno


O vento irado sopra furiosamente e, a neve assustada cai sobre os ombros das árvores grisalhas. Se abro a janela, fico com frio. Mas por obstinação esperançosa vou abri-la para que me venhas aquecer nesta noite de inverno! Dizem que amor rima com dor e que felicidade rima com saudade e eu? Eu então rimo contigo. Dizem que a camisola é feita de lã, e que a casa é feita de tijolo e eu? Eu então sou feita de ti. A janela está aberta, não demores muito a entrar. Eu tenho frio. O sangue é vermelho, o céu é azul e eu? Eu então tenho a tua cor. Estou deitada na cama - já te disse que tenho frio? - tenho sono também mas, não adormeço enquanto não chegares! Vou batendo os dentes para ter música enquanto não vens.

escrito em outubro de 2005 por Ana Monteiro


Em resposta ao teu Inverno:

Sigo a esperança que me move em tua direcção, procuro as minhas pegadas na neve que cai sobre mim como se não tivesse roupa. O vento parece que me tira a alma de tanto soprar. Estou tão perto de ti, o meu corpo já não resiste ao frio. Abre a janela, deixa-me entrar. Aqueces-me? Deixa os nossos corpos entrelaçarem, quero rimar contigo. Quero sucumbir ao prazer de te ter. Somos feitos do mesmo molde, da mesma alma. Sou feito de ti. De que cor vês o céu? Quero a tua cor. E tu? Abriu-se uma janela! Ouço uma música, és tu?!...Posso subir? Não dás sinal, deviam ser as árvores a roçar. Fico a tua espera, estou enregelado, mas espero!

Escrito nos últimos dias por Daniel...

Amor, decidi fazer-te uma surpresa e deixar aqui o texto que me escreveste...fiz bem? achei que aquelas palavras não podiam ficar apenas no papel porque somos mais do que letras que se tecem nas folhas amareladas...Apeteceu-me dizer aqui que te amo para que toda gente leia o nosso amor!
Tu chegaste e aqueceste-me no inverno...podes entrar. Sim, entra! Estive sempre à tua espera...

terça-feira, agosto 22, 2006


Em momentos de solidão, momentos como este, chamo pelo teu nome. Momentos que se rasgam em reflexos de lua que quebra, em reflexos de momentos que se perdem no tempo, reflexos feitos não sei bem de quê, nem como, nem porquê... Outros momentos que existiram. Eu podia dizer-te que choro, que sofro porque me perco nesses momentos que já não podem regressar. Mas tu sabes disso! Tu também os conhecias e também os penetravas como um dia fizeste em mim. Esses momentos que eram feitos não sei bem de quê, nem como, nem porquê eram meus e teus e nossos! Mas, um dia ou uma noite esses momentos quiseram partir como tudo nesta vida parte. E partiram apenas num momento. Bastou-lhes isso! Foram apenas três segundos. Foi exactamente o mesmo tempo que demorei a passar do alto da montanha onde o sol brilha para a treva onde os amantes felizes não chegam. Os momentos continuam gravados. Os mesmos momentos que te fizeram rir, fazem-me agora chorar! Os mesmos! Exactamente os mesmos! Talvez momentos desses não devessem existir pois a cinza é a única coisa que resta. E a pele que sentia fica queimada até morrer! Lá fora está escuro, cá dentro o raio de luz se perde ! Sou pedaço de chão. Pedaço de mim sem restos de nós. Em momentos de solidão, momentos como este, chamo pelo teu nome que afinal nunca existiu. Se tudo isto fosse um momento...daqueles que passam e nunca mais lembramos....Se aqueles momentos voltassem mesmos depois de os teres destruído...Se a cinza não vencesse sempre...

~~Nego-te até me sentir exausta e me transformar em cinzas~~

quinta-feira, julho 06, 2006





Amo-te tanto que até dói!

segunda-feira, junho 12, 2006


A música é poesia...
A poesia é música...




Poderia eu viver sem poesia?
E poderia eu viver sem música?



Quando no céu morre uma estrela, há sempre outra que nasce...



segunda-feira, maio 22, 2006

Os Nossos Tempos De Faculdade


Quando ali entrei nunca pensei que hoje pudesse abrir os olhos e senti-los escorrer uma água que é tão doce e ao mesmo tempo frágil. Lembro-me como se fosse hoje: as primeiras impressões, os primeiros passos, os primeiros trabalhos, as primeiras amizades. Rimos tanto e chorámos tanto também. Errámos e aprendemos. Discutimos e fizemos as pazes logo no momento a seguir porque as nossas amizades sempre foram mais fortes do que tudo. Estivemos lá e quase desistimos face a tanta dificuldade... Enfim, vivemos. Agora que olho para nós e que vejo que tudo está prestes a terminar, sinto uma melodia triste porque, eu queria como uma criança quer, pôr-vos no meu bolso e levar-vos a pintar o céu. Eu pintava-o de azul, a Bia de lilás, a Raquel de rosa, a Luisa de amarelo e a Mokinhas de verde. Porque a liberdade é verde e o céu é azul. Mas eu não posso ficar triste porque um amigo meu, um amigo muito sábio diz que nós só deixamos de ser crianças quando perdemos a nossa inocência. Eu sou tão criança, hoje somos tão crianças. Vamos apertar todas as nossas mãos e dar o nosso sorriso mais bonito e, num abraço tão profundo, sentir a amizade que nunca foge mesmo quando faz as malas para ir conhecer novos mundos. Nesta longa caminhada, vocês foram as pessoas mais importantes que ali conheci. Nunca esquecerei os toques no ombro quando tudo corria mal, nunca esquecerei os lábios que senti na testa quando a vida académica era mais do que se podia imaginar, nunca esquecei nenhuma de vocês. Quando toda esta fase começou, apenas queria que ela terminasse, agora que terminou apenas queria que ela recomeçasse. Não posso, não podemos porque existem seres superiores a nós. Desejo-vos então que encontrem sempre os jardins mais belos e os pássaros que voam mais alto. Vocês vão voar com eles, eu sei. Eu estarei aqui a acompanhar os vossos voos. E, também eu lá irei de vez em quando com o meu pegâso voador dar-vos abraços e miminhos e muitos chocolates. Continuemos então, mesmo nesses voos, de mãos dadas para que as nossas amizades se prolonguem para além destas salas de quatro paredes, para além desta esplanada de jacarandás...aqui é bonito mas temos um mundo lá fora à nossa espera...que nunca nos percamos no meio da multidão...porque cada uma de nós estará num canto a proteger a que de nós está no meio. Queria continuar este texto, queria ir ao dicionário e buscar as palavras mais belas para vos oferecer mas, na impossibilidade de continuar, reafirmo a minha amizade e o enorme carinho que terei sempre por vocês. Que não sejamos iguais a todos os outros, que sejamos aquilo que somos para sempre...

Amigas, obrigada por tudo o que vivemos. Obrigada por serem quem são. Simplesmente, obrigada. Bia nunca percas esse sorriso e essa força que tens dentro de ti; Luisa nunca percas a coragem que até tu desconhecias possuir, Raquel nunca percas esse sorriso que ilumina o dia de todos os que estão à tua volta e Mokinhas nunca percas essa doçura de boneca e essa força de vontade que me faz ficar acordada até as 5h30 da manhã... e que nenhuma de nós perca nenhuma outra de nós...

E só para terminar, algumas recordações: Continental no seu melhor, “alguém deixou cair um telemóvel”, “antigamente havia muitas portas e muitas janelas”, “gel na cara”, “a tua avó é tão querida”, “jean pierre jean pierre tu vas tomber” , cruela, “estão a ver este pontinho? Eu também não mas é um barco ou lá o que isto é!pelo menos é o que eu acho...”, as noites em branco, “ó professora eu não estou a perceber bem...quer dizer que o quadro é o quadro?”, “don’t bother...i’ll be fine”, o stress dos trabalhos, “o stor Manel não dá aula”, “claro que nossa senhora é portuguesa”, “morte ao caloiro, o caloiro vai morrer”... e vão-me desculpar mas somos todas umas grandes FRIENDS!

Poderia continuar mas mais do que palavras são os momentos que guardamos dentro de nós e esses são eternos e intrínsecos.

É com uma grande tristeza que me despeço mas com uma grande felicidade que digo CONSEGUIMOS! Parabéns a todas minhas amigas.

Termino agora com um grande obrigado a todos os que me acompanharam neste caminho e que nunca me deixaram desistir...a todos os que me limparam as lágrimas em noites de desespero e que gravaram o meu sorriso em dias de alegria e vitória. Obrigada...


segunda-feira, maio 01, 2006

Naquela Noite...


Na noite em que ele me beijou, tudo irradiou luz de dentro para fora. O que estava morto em mim, renasceu. As mãos cruzaram-se e os nosso dedos tocaram-se. E quase ficámos ali no sitio dos veados e das fontes. As mesmas fontes das cantigas de amigo. As mesmas cantigas eufóricas soavam no ouvido e estendiam-se por um horizonte infinito. O mesmo horizonte que nos beijava e nos abençoava. Eu pensava “amor nós não pertencemos aqui” e tu dizias como se me tivesses ouvido “meu amor nós pertencemos aonde o sol existe e aqui ele existe”. Eu queria ir trabalhar mas não podia porque gostava de ti e a minha amiga tinha-me dito que quando gostamos de alguém, não vamos trabalhar. Tu querias ir ouvir os pássaros a cantarolar mas a minha voz enrolava-te nos seus braços musicais. Sabes que eu também sou pássaro, não sabias? Sim, na noite em que tu me beijaste, tudo se iluminou. Mas era um beijo envenenado. Tu tinhas que partir e desta vez também a madrugada chorou porque afinal nós não pertencemos mesmo aqui. Todo o meu corpo se deixou contaminar pelo teu sangue endurecido. Porque todo o nosso sangue se uniu naquele veneno. Não, não deviam separar corpos e sangues que fazem parte do mesmo ser. Agora, tudo morre em mim e tudo se desfaz em ti. O tempo passou e anoiteceu em nós. Aqueles pássaros que ouvias envelheceram tanto que ficaram sem voz. Por entre palavras soltas, eu penso “somos como todos os outros” mas não obtenho resposta. Porque a crueldade é sempre cruel, eu fui trabalhar naquele dia enquanto atava os meus longos cabelos com um elástico preto que me deste no dia em que decidimos nunca mais nos separarmos. Tu colocavas a gravata enquanto ligavas a música para preencher o vazio mas que afinal não preenchia nada. Não que não houvesse luz escondida em nós, apenas escondemo-la tão bem que acreditámos mesmo que ela realmente não existia. Na noite em que tu me beijaste, foi a mesma noite em que partiste. Eu estou aqui sentada olhando pela janela e pensando nos nossos tempos de juventude...

sábado, abril 15, 2006

Porque És Ser Em Mim



Encontraste-me quando deixei de ser. No instante em que apaguei o meu perfume intrínseco, tu poisaste a tua mão sobre os meus olhos e abriste-os com odores matinais. No entanto, quando tenho sono penso se não terá sido imaginação em mente que quer e deseja ardentemente. Mas é nesse momento que tu estendes o teu braço e me aconchegas sob o teu peito de veludo. A luz do dia nasceu e entra pela janela inundando-nos de claridade dourada que celebra e ilumina todos os becos escuros que existiam em nós. Eu até gostava de ir lá para fora brincar às escondidas com as crianças mas e se tu não me encontras mais? Está tão bom aqui. Olho-te meu amor como nunca olhei nada...e fico assim a olhar-te, durante tempo que não se esgota cá dentro, só pelo prazer de te olhar. Como és belo. Consigo ver-te por dentro e por fora. E quero continuar a olhar-te até te saber de cor para que nunca esqueça nenhum traço teu quando tiver de morrer. Sabias que tens um sinal junto do olho esquerdo? É como se te conhecesse desde sempre. Se a felicidade pudesse ser eterna, nós seriamos sempre assim. Porque quase me fazes acreditar que aqui podemos ser poesia. Versos que dançam em nós e nos beijam. O teu corpo, amor, é o aquário onde nado sem nunca me afogar. Mas eu também posso voar tão alto quanto me ensinaste. Eu gosto de ti e, por isso, levanto-me de madrugada e dou de beber às pedras da calçada. Agora sei que elas também dançam quando o céu apaga a luz para dormir. Porque gosto de ti, salto em bicos de pé nos precipícios onde me resgatas e como chocolates, como muitos chocolates. Tu és feito de chocolate. Eu entendo a tua essência porque o amor é achocolatado. Traz-me aquela caixinha que te dei meu amor, na primeira vez em que te vi. Porque quando meus cabelos roçaram no teu rosto eu sabia que me ia apaixonar. Eu sempre soube. É nela que vou guardar todos os momentos que, à força de se recusarem cair nas garras do tempo, se transformam em recordações: bilhetes de cinema, rosas colhidas em flor de orvalho pela manha, presentes oferecidos como só os tontos apaixonados oferecem...é nela que guardo o nosso livro. Não vires a página onde escrevemos os gestos de nenúfares. Serei uma página que irá amarelecer e rasgar nas pontas que os dedos desgastam. Mesmo aí gostarás de mim? Porque é tão doce ler-te com os meus dedos frágeis. Porque eu gosto dos teus ombros amor e porque no silêncio se diz mais do que as palavras podem criar. Sim amor, o mundo é caótico. Também as minhas palavras o são. Os gatos também miam e rosnam lá fora. Mas quando dois corpos se unem jamais são separados. Quando duas almas se entrelaçam, jamais se transformam em folhas outonais que caem no chão pisado e dorido, nem mesmo no inverno que me deixava sozinha sem música. Eu já te disse que não tenho alma mas isso realmente importa-te? Os teus olhos conseguem ver para além do meu corpo que apodrece. Os teus olhos dão-me alma. Porque eu não tenho alma, tu divides a tua comigo. E os meus olhos são verdes porque tu os vês assim...

~hoje fugimos em barquinhos de papel~


domingo, abril 02, 2006

Amor De Filha


Nem sempre somos capazes de dizer o que sentimos àqueles que mais amamos, como se o sentimento fosse vergonhoso. Nem sempre os gestos voam livremente. Nem sempre o sol brilha quando chove. E só quando elas morrem, só aí nos remoemos por as palavras não terem saltado para onde sempre pertenceram. Hoje, porque o sol ainda brilha e porque hoje ainda não chove, hoje eu quero dizer-te mãe que te amo. Só isto mãe...Amo-te. Levo o sonho ao pensamento e vejo que os grandes textos são sempre dedicados às mães. Mas porque nem as minhas palavras cimentam um grande texto nem porque o meu amor é limitado...Para mim não! Amo-te pai...Só isto...Amo-te. Se pudesse oferecer-vos-ia as estrelas do céu para que nunca o nosso mundo escurecesse. Mas vocês diriam: "Não podes filha. Não vês que é impossível roubar as estrelas? Não vês que elas pertencem ao céu azul?" Não me importa que vocês não percebam a poesia e que a liberdade é verde. Eu posso, eu dou as estrelas e o sol e a lua e as nuvens e tudo o que pertence ao céu pois dizem que é ai que se encontra o paraíso. Eu não acredito na palavra dos homens mas tu mãe dizes que Deus se encontra no céu e eu quero acreditar em ti. Porque tu mãe não és como eles. És inocência que alimenta. És pureza em ser divino. És sonho que aconchega quando o sono vem. Tu és mãe que com os teus beijos secam as lágrimas que insistem em descer ao mundo dos infelizes. Mãe de mãos suaves que puxa o cobertor para que o frio não entranhe em mim e naquilo que sou. Quando vivemos com os homens transformamo-nos também em bestas sadias, em cadáveres adiados que procriam. Mas tu não pai. És força em gestos macios que nos acariciam nas noites de solidão. És folha que se mantém no ramo. És amor que inunda em nós. Nunca eu te vi um rosto rude, nunca eu te senti as mãos ásperas como as mãos daqueles homens. Pai que soma os seus abraços em braços pequenos como os meus. E eu pai? E eu mãe? Era assim que me sonhavam? Matei eu peixes sem beijos doces que os fariam adormecer? Eu não sei ou como costumo dizer sei lá eu...mas deixo-vos mel para que a chávena fique sempre quente, bem quentinha como as minhas mãos nos dias de inverno. Obrigada...era isto...nem sempre os meus olhos, que afinal são claros, se tornam em transparência branca de quem acorda com a luz solar a entrar pela janela mas, se olharem para o seu interior, que afinal não é escuro, descobrirão que eles vos devolvem os gestos segredados em liberdade sentimental. Era isto...dizer que vos amo mais do que tudo nesta e na outra vida...mas também eu sou humana e, por isso, não sei se algum dia terei coragem de vos mostrar estas palavras e o amor que as preenche...

sábado, março 11, 2006

Sem Titulo


Finalmente descobri a verdade. E agora imploro aos deuses para que me levem novamente para a doce mentira. Para o ledo engano. Sim, a verdade tortura-me e fere-me de uma forma que espicaça para além do imaginário possível. Facadas que me esquartejam e despedaçam cada pedaço de vida que ainda restava em mim. Venham eles dizer que não podemos dançar na mentira. Venham eles com as teorias idiotas de que só podemos ser felizes quando pisamos a realidade... Não me convencem. Ouviram? Não me convencem. Que sabem sobre as dores que lhes são exteriores? Deixem-me....deixem-me a remoer a verdade que agora já não volta atrás. Busquei num dicionário as palavras mais horrendas, as mais monstruosas mas nenhuma consegue alcançar a dor dilacerada que queima em mim. É o fim! Não o fim de um romance. Não o fim de uma aliança. Não um fim dum livro. É isso que me trespassa. Porque é um fim que não recomeça mais. Nunca! Conseguem sentir o peso da palavra “nunca”? É o fim do fim...de tudo! Um fim que não acaba nem bem nem mal...que apenas acaba! Arrasta-me ainda mais para o lodo o saber que o poder das minhas mãos perante este fim se desvanece. Em cinzas. Impotente. Mortificada. Nem eu nem ninguém. Afinal hoje acordei e embalei-me na verdade que sempre ali esteve. Nunca antes a tivesse olhado e a integrado em mim. Verdade que se entranhou em mim para nunca mais sair. Continuasse eu agarrada ao conto que inventei para poder ser feliz para sempre O meu engano era tão bonito, tão puro, fazia-me melhor do que sou. Agora, sou apenas mais uma fraca que quando pensa o mundo se vê estática num abismo maior do que eu. É tudo tão vazio agora. Sim, é um vazio branco. Não, branco não! É um vazio negro. Luto por mim! É tudo tão sem sentido agora. Não me localizo em lado nenhum. Eu e o mundo. Já não há regresso. Não há! Quando se chega à verdade já não há caminho para trás. Um dia eles hão-de continuar e eu acabo... Porque eu não tenho alma, sou apenas um corpo que um dia vai apodrecer. O meu sofrimento impede-me de continuar a escrever. E para que nem tudo tenha um fim – como odeio eu essa palavra – este texto fica por acabar...

terça-feira, fevereiro 28, 2006

As Lágrimas Quando Caem




As lágrimas quando caem não voltam ao ponto de partida. As lágrimas quando caem perdem a transparência. As lágrimas quando caem revelam segredos afundados na alma. Eu chorei ontem. Eu chorei o amanhã porque as lágrimas quando caem, falam por si. Tu pedes-me para sorrir mas as lágrimas quando caem quebram as promessas feitas durante o silêncio. Quando caem lágrimas. As lágrimas quando caem. Quando os corpos se tocam, as lágrimas estremecem. Porque as lágrimas quando caem não respeitam as juras de amor que sussurramos ao ouvido. Dou-te cada gota de água para que nada de nós se perca. Mesmos quando as lágrimas caem eu continuo a gostar de ti. As lágrimas quando caem inundam o nosso caminho, a nossa rota. As lágrimas quando caem desfazem metas traçadas. As lágrimas quando caem, batem no chão. As lágrimas quando caem fazem sons que só tu escutas. As lágrimas quando caem matam a voz. As lágrimas quando caem torturam quem as recolhe. As lágrimas quando caem turvam o olhar de sol nascente. Quando caem lágrimas. As lágrimas quando caem. Quando as vidas se entrelaçam, as lágrimas ganham sentido. As lágrimas quando caem saboreiam os pedaços desencontrados. As lágrimas quando caem ameaçam sonhos nunca antes sonhados. As lágrimas quando caem arrancam palavras esqueçidas no pensamento. As lágrimas quando caem perdem-se umas das outras, tal como eu te perco. Eu chovo de um lado, tu choves do outro. Encontramo-nos nos lábios que se beijam. Tu beijas as lágrimas que caem. As lágrimas quando caem misturam odores de pétalas roubadas. As lágrimas quando caem desenterram asas fugidas dos países sem aves. As lágrimas quando caem tapam a tua imagem. Limpam a tua imagem. Lavam a tua imagem. Perco a tua imagem...sim, eu choro porque as lágrimas quando caem fazem chorar. Fica no canto encurralado quando as lágrimas caem. Não quero que me vejas chorar. Mas as lágrimas quando caem, caem para todos. E uma mão estende-se junto a mim...

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

As Palavras


As palavras dançam. As palavras vibram em mim. Elas envolvem-te nas suas silabas. São brilho. São auge. Junto letra a letra e formo a palavra “amor”. Pinto-a a vermelho carregado para ta oferecer embrulhada num papel velho e estragado. As palavras são doce música nos ouvidos. São cores cintilantes. São vida. As palavras que eu te dou... Porém, no meio do vendaval, as palavras misturam-se. As palavras escurecem. As palavras perdem-se. As palavras morrem. São cânticos negros. São danças macabras. Espera, faltam letras aqui! As palavras são fogo solto. As palavras são água presa. As palavras fazem amar. As palavras fazem odiar. Toco no acento, brinco com a cedilha. Mas, por vezes escorrego no til onde me tento empoleirar. As palavras amam. As palavras ferem. As palavras dizem a verdade. As palavras mentem. (O teu olhar não diz isso!) Palavras fúteis e vitais. (Preciso das tuas palavras). Palavras sorridentes e tristonhas. (Consigo entrar em ti!) Palavras que me trespassam como uma espada sangrenta. Palavras que me limpam o sangue. São só palavras, meras palavras...mas afinal que palavras são essas que me queres tu dar? Porque pior que todas as palvras vestidas de negro é esta ausência de palavras que torna o silêncio ensurdecedor!

segunda-feira, fevereiro 06, 2006


Já olhaste para nós? Diz-me se ainda consegues ver aquilo que eu vejo. Quando o vento me bebe no seu corpo, eu consigo ouvir a tua resposta. É difícil chegar à verdade. Eu sempre acabei onde tu começavas. Mas, tu sempre te misturaste com as minhas lágrimas, com o meu suor, com o meu medo. Diz-me, meu amor, consegues mesmo ver o que há entre nós? Porque eu parava sempre de cantar para ouvir a tua doce voz. E tu insistias em partilhar o teu timbre perfeito com os meus ritmos desconexos. Era isso que tentavas mostrar-me, não era meu amor? E quando as peles se tocavam, eu afastava-me para não te roubar nada que não me quisesses dar e tu aproximavas-te para mostrar que não havia nada para roubar. Sabes o que restou entre nós, meu amor? Sabes porquê nada vês? Porque o nada não se vê! É o vazio das mãos. O vazio dos gestos. O vazio dos olhares. O vazio da vida sem ti. O vazio do “nós”. Olha agora, meu amor. Olha. Já não há nada para ver. Demoraste tanto tempo a olhar que cada pedaço de vidro se desfez em momentos presos numa teia...O vácuo está lá para nos lembrar que em algum momento existiu uma borboleta pronta para voar rumo a um céu azul e limpo. Não! O vácuo está lá para que possamos partir sem desculpas remendadas por uns fios gastos. Não precisas de ficar. Tu não queres ficar. As asas de uma borboleta só nascem uma vez, não é? No mesmo sítio onde demos as mãos, as mesmas mãos, os mesmos dedos soltam-se e partem acompanhados pela chuva que lava os braços. Assim, quando esses mesmos dedos quiserem tocar os mesmos lábios beijados em noites de luar, eles já não os encontrarão. O vazio...está vazio...é vazio...as palavras já nada preenchem, meu amor. Poupa a tua melodia. A única palavra que resiste é a palavra “fim”. Chegamos ao fim. Amor, na criação do nosso fim conseguimos dar sentido ao “nós”, só aí existimos juntos. Fecha os olhos, meu amor, fecha-os bem porque quando os abrires já não me encontrarás aqui!

quarta-feira, janeiro 25, 2006


Vi-te passar. Não fui atrás. Quando me tocaste, dei um passo atrás! Será que tu ainda estás aí? À minha espera! Eu queria tanto ficar...queria dizer-te todas as palavras doces que se enrolam na garganta e, que ainda assim continuam lá à espera que a tua língua lhes dê libertação. Queria tanto ficar... Mas, ele fala mais alto do que eu. Quando te quero estender a mão e pedir “fica”...oh...o meu corpo desmaia de palidez e sinto-me sufocar e sinto-me emudecer. Será que sabes que ainda te amo? Será que o meu olhar ainda te transmite alguma mensagem que navega perdida numa garrafa pelo mar fora?...Queria tanto ficar.... Eu tento, não penses que não tento mas, não consigo. Ainda com a cabeça junto a almofada e de olhos fechados, os meus pensamentos voam e trazem nas suas asas de papel o desejo de te bater à porta e sorrir-te um olá. Sim, eu podia ser a pele macia que te acaricia quando adormeces mas, ele estrangula-me a todo o momento...eu luto, não penses que não luto mas, todos os dias perco a guerra...se ao menos conseguisses ler-me e salvar-me...Queria tanto ficar, tanto, queria tanto....mas sempre que te olho e que os meus lábios se projectam para dizer “eu amo-te”, é então, que o meu deus vem e prende- me, amarra- me com as suas cordas feitas de palavras duras e cruéis... Orgulho é o meu deus e tu continuas a ser apenas o mortal que eu amo...



para mais textos pecadores visitar http://setepecadosmortais.blogspot.com/

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segunda-feira, janeiro 09, 2006

Para começar, quero desejar um óptimo 2006 a todos vós. Queria também pedir desculpa por esta ausência demorada mas, tenho andado super atarefada com a faculdade. Prometo que assim que ficar um pouquinho mais livre, voltarei a colocar novos textos e, irei visitar os vossos blogs dos quais já sinto falta...tenho saudades de ler certos bloguistas que andam por aqui e que são, de facto, muito bons...:)Por enquanto, deixo aqui o endereço de outros dois blogs os quais participo também e que actualizei hoje...

http://setepecadosmortais.blogspot.com/
http://fiosdemarionetes.blogspot.com/

... e já agora....

http://oquetukereseieu.blogspot.com/

Beijocas a todos e até breve

P.S- Muito obrigada pelas vossas visitas e pelos vossos comentários :)

terça-feira, dezembro 27, 2005

"you're so fucking special!"

Estás à espera que seja tarde demais?

Deixa-me ir,então!

Deixa...

...Por favor!

sábado, dezembro 17, 2005


La noche es hermosa
So beautiful like a day
Mais je préfère le jour
Que é tão belo como a noite!

~Tu es partout et tu n'y es pas!~



sábado, dezembro 10, 2005

Natal


Dei-me conta que já não sei montar a minha árvore de natal! Tentei mas caiu! Antes, tudo era verde com bolinhas cintilantes que enchiam a vista. Hoje já nem sei por onde começar. Passeio-me pelas ruas como que semi-morta procurando os pinheiros de natal. Um deles para-me, um deles faz-me revisitar os outros natais. Era tudo tão inocente, tão feliz, tão...Chegava o dia 24 e a ansiedade rebentava como se aquele fosse o dia mais importante da minha vida. Esperávamos pela meia-noite. Brincávamos. Era Natal! Éramos gatos que se recostavam uns nos outros depois de uma taça de leite. Hoje o que é o natal? O dia 24 chega e é igual a todos os outros. Talvez pior. Sentamo-nos, jantamos e fingimos que somos felizes. Quem dera não sentir isto. Mas, é assim que o sinto. Sorrimos e fingimos gostar uns dos outros. A nossa família foi sempre assim? – ou serei a única que acordou? E, ainda o pai natal não chegou e já cada um volta para o seu lado, falando mal do outro durante a viagem (como diz a tradição). “Viste o que ela disse? Quem é que ela pensa que é?”. Tantas vezes me mostraram o natal hipócrita...eu sem nunca acreditar! Este ano, o meu pinheiro ficará onde pertence porque já não sei senti-lo. Nem sequer o vejo! Decidi que este natal, ficarei longe. Sozinha, com a familia de quatro membros. Só essa é verdadeira! Sem tios e primos conhecidos desconhecidos. Porque já não sei montar a minha árvore de natal! Prefiro a vossa ausência inteira e crua a ter que fingir ser aquilo que não sou. Só a minha avózinha continua a significar o Natal. Mas, está tão velhinha que volta à cegueira que eu antes possuía. E o avô já não renasce pois não? Se eu pudesse resgatar com ela aquilo que o natal foi... Não posso! Por mais que os anos corram e por mais que me entranhe em outras famílias, nunca, nunca voltarei a ter aquele natal. Porque naquela época eu era inocente e não vivia como gente grande...